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SEDE ASSEMBLEIA DE DEUS MINISTERIO DE SANTOS A PIONEIRA FUNDADA EM 1924

SEDE ASSEMBLEIA DE DEUS MINISTERIO DE SANTOS  A PIONEIRA FUNDADA EM 1924

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Um brado de garantia
"Hoje você estará comigo no paraíso."
Lucas 23.43


Todos nós achamos difícil conversar com quem está à beira da morte, especialmente sobre a morte iminente. As enfermeiras contam que amigos e parentes adotam um código de silêncio, evitando falar no assunto sobre o qual o amigo moribundo gostaria de conversar. Quando o homem que havia sido meu médico estava prestes a morrer devido a um câncer, eu soube que não era hora para superficialidades. Debrucei-me sobre sua cama e sussurrei qua­se que diretamente em seu ouvido:
— Doutor, você tem de aceitar a Jesus como seu Salvador.
Ao que ele respondeu:
— Eu sei que tenho, mas não sei como.
Eu sei que tenho, mas não sei como! Naquela tarde, Deus deu-me o privilégio de lhe mostrar "como", e nas poucas semanas que lhe restavam ele não ape­nas teve a certeza de que iria para o céu, como tam­bém quis que lessem a Bíblia para ele. Teria sido muito melhor se ele tivesse conhecido a fé em Cristo no início da vida, mas, felizmente, a graça de Deus é concedida até mesmo aos que estão no limiar da morte. Sim, antes tarde do que nunca.
Se fôssemos o centurião responsável pela crucifi­cação, teríamos posto os dois ladrões próximos um do outro e Jesus mais afastado. O soldado romano provavelmente não tinha a menor idéia do motivo pelo qual ajeitara as cruzes naquela posição, mas es­tava cumprindo uma antiga profecia: "Ele [...] foi contado entre os transgressores" (Is 53.12). Deus decretou que ele, que era o mais santo, deveria mor­rer entre os mais profanos. Jesus não apenas morreu entre criminosos, mas foi considerado um deles, e nis­so está a essência do Evangelho.
Deus tinha suas razões para decretar que Jesus fos­se crucificado entre dois bandidos. Queria demons­trar a intensidade da vergonha que seu Filho estava disposto a suportar. No nascimento, foi cercado por animais, e agora, na morte, por criminosos. Não per­mita que ninguém diga que Deus se manteve fora da ruína de nosso mundo decadente. Ele desceu para que pudéssemos subir com ele em novidade de vida. Mas, voltemos ao que estávamos examinando.
Nossa atenção volta-se para os dois homens cruci­ficados ao seu lado. Um deles, em particular, merece especial consideração, por ter recebido a promessa de que devemos participar se formos morar no céu com nosso Senhor. Aqui, encontramos segurança para os que estão morrendo de câncer nas enfermarias de hospitais e também esperança para o forte e para o saudável, que poderão um dia encontrar a morte de forma repentina. Aqui há esperança para o pior e maior dos pecadores.
Que dia teve aquele ladrão! Pela manhã, ele esta­va sendo, com justiça, crucificado. Ao anoitecer, foi recebido no Paraíso por Jesus!
Pensemos nessa história.


Sua situação

A ficha desse homem mostra que se tratava de um criminoso profissional, um ladrão "osso duro de roer" que, de início, se juntou aos inimigos de Jesus para ridicularizá-lo: "Igualmente o insultavam os ladrões que haviam sido crucificados com ele" (Mt 27.44). Sua atitude era semelhante à de seu parceiro no cri­me, suspenso do outro lado de Jesus. Não sabemos qual dos dois era o mais pecador, mas ambos podi­am ter constado na lista dos mais procurados de Je­rusalém.
Sendo tão ruim, ele representa todos nós. Pode­ríamos rejeitar tal idéia, argumentando que não so­mos ladrões, não assaltamos bancos nem arrancamos bolsas de velhinhas que caminham pela rua. Mas a honestidade exige a admissão de que todos nós rou­bamos a Deus. Suponha que você foi nomeado por uma empresa de Nova York a fim de representar os interesses da empresa em Chicago. Todos os meses, mandam-lhe seu cheque, o qual você, de bom grado, assina e embolsa. Só que, na verdade, você jamais trabalhou para essa empresa, e sim em prol de outra. Isso não seria roubo?1
Esse exemplo nos descreve de maneira exata. Deus nos dá a vida, talentos, habilidade de ganhar dinhei­ro, amigos e ainda assim glorificamos a nós mesmos em vez de glorificá-lo. Em vez de glorificar a Deus, vivemos para nós mesmos e, involuntariamente, ser­vimos os interesses egoístas de Satanás. Se parássemos de fazer comparações entre nós mesmos e sujeitássemos nosso histórico diante da face de Deus, veríamos que não somos muito melhores que o la­drão que se juntou aos amigos que estavam zom­bando de Jesus.
Esse homem não tinha nenhuma expectativa. Era muito tarde para um novo começo, muito tarde para esperar que suas boas ações sobrepujassem as más. O escritor Arthur Pink comenta: "Ele não tinha como trilhar as veredas da virtude, pois tinha um prego atravessado nos pés. Não tinha como realizar nenhuma boa ação, pois linha um prego atravessado nas mãos. Não tinha como virar a página e seguir vivendo uma vida melhor, pois estava morrendo".2 No en­tanto, a impossibilidade não é uma maldição, se nos atrair para o único que pode nos ajudar. Na verda­de, se não estivermos indefesos, não temos como ser salvos.
Lá na cruz, esse homem — que Deus o abençoe! — teve o coração transformado.


Sua notável fé

E muito provável que o ladrão não tivesse visto Jesus até aquele dia. Quando os três homens foram prega­dos na cruz, ele pensou que Jesus fosse apenas outro criminoso. Quando as cruzes foram erguidas e fincadas nos buracos, o ladrão não tinha motivo algum para acreditar que se encontrava na presença da Majesta­de. O Gólgota era o lugar onde morriam os crimino­sos. Não era lugar para encontrar a Divindade.
O que o fez mudar de idéia? Podemos supor que, em primeiro lugar, ele ouviu Jesus orar: "Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que estão fazendo" (Lc 23.34). Ele não pôde esquecer aquelas palavras, pois somente um homem que conhecesse a Deus podia suplicar ao Pai o perdão para outras pessoas. A ora­ção penetrou em sua consciência, e ele percebeu a estupidez e a cegueira do próprio coração. Reconhe­ceu que também precisava de perdão.
Ele então ouviu a infeliz afirmação da multidão: "Salvou os outros, mas não é capaz de salvar a si mesmo!" (Mt 27.42). As palavras foram ditas para desafiar e ridicularizar Jesus, mas o ladrão pensou: "O que eles querem dizer com 'salvou os outros'?". Conforme a multidão ia repassando suas palavras e seus milagres, o criminoso começou a ponderar so­bre a zombaria que fizera e começou a perceber que podia estar justamente na presença do Salvador.
Além disso, Pilatos escreveu o que alguém chamou "panfleto evangélico", pregando-o na parte superior da cruz. Era habitual escrever o crime do crucificado em uma placa para que os passantes pudessem ver o moti­vo da execução. Pilatos escreveu: "Este é o Rei dos Ju­deus" (Lc 23.38). Alguns protestaram: "Não escrevas 'O Rei dos Judeus', mas sim que esse homem se dizia rei dos judeus" (Jo 19.21). Mas Pilatos, em um raro enlevo de coragem, não mudou de opinião, e a placa foi posta no lugar.
Quando Jesus desfilou pelas ruas de Jerusalém, a placa o acompanhou. Já na cruz, o ladrão pode ter lido a frase ou, mais provavelmente, tê-la ouvido em meio à zombaria. De qualquer forma, agora acredi­tava que Jesus era o Rei, pois implorou: "Jesus, lem­bra-te de mim quando entrares no teu Reino" (Lc 23.42; grifo do autor). Inacreditavelmente, Deus fez nascer a fé no coração daquele homem.
Pense nisso! Ele creu em um momento no qual Jesus estava aparentemente sem condições de salvar quem quer que fosse. Na verdade, aparentemente ele mesmo precisava ser salvo! Jesus estava suspenso como uma vítima indefesa, não como um rei. Quan­do você precisa de salvação, não recorre a alguém na mesma situação. Quando você precisa de salvação, não recorre a alguém que esteja morrendo em des­graça. O bom senso nos diz que o Salvador deve es­tar acima do destino dos mortais.
Que salvador usaria uma coroa coberta de san­gue? Que salvador teria a barba arrancada pela raiz? O corpo de Jesus estava em colapso. Os cravos havi­am rasgado seus pés e mãos. Seu queixo estava apoi­ado no peito, exceto quando reunia forças suficientes para levantar a cabeça e respirar. Que visão chocan­te! E, apesar de tudo, o ladrão creu!
Um Messias que podia ser assassinado pelos inimigos não era o que os judeus procuravam. As es­peculações acerca do Messias diziam que ele afugen­taria os romanos que ocupavam a terra, estabelecendo um reino. Quando Jesus explicou aos seus discípulos que deveria ser crucificado, eles ficaram pasmados. E, naquele dia, até mesmo os que acreditavam nele tiveram dúvidas. Ao mesmo tempo em que o sangue escorria do corpo de Cristo, a fé escoava do coração de seus seguidores. Ainda assim, o ladrão creu!
O ladrão acreditou antes que as trevas caíssem sobre a terra, antes do terremoto e antes que o véu do Templo fosse rasgado em dois. Ele creu sem ter provas da ressurreição ou da ascensão de Jesus Cris­to. Ele creu sem ver Jesus andar sobre as águas, ali­mentar multidões ou transformar água em vinho. Por mais improvável que fosse, ele creu.
Arthur Pink nos desafia com esta pergunta: "Como explicar o fato de esse ladrão moribundo ter aceitado um homem crucificado e sangrando como seu Deus?". Não se pode achar a resposta a essa pergunta pela análise psicológica do indivíduo. A res­posta é encontrada na misericórdia imerecida de Deus. O Espírito Santo atraiu seu coração delinqüen­te para o homem da cruz do meio. E ele creu.
A jornada de fé do ladrão começou quando ele repreendeu seu parceiro no crime: "Você não teme a Deus, nem estando sob a mesma sentença? Nós estamos sendo punidos com justiça..." (Lc 23.40,41). Sua consciência, uma vez despertada, dizia-lhe que temesse a Deus, pois o julgamento estava próximo. Ele honestamente admitiu que estava sofrendo "com justiça", ou seja, estava tendo o que merecia. Não se justificou nem apresentou desculpas. O máximo que podia fazer era esperar que seu companheiro do ou­tro lado também admitisse os próprios pecados.
Lutando com cada palavra, voltou-se e disse a Je­sus: "Lembra-te de mim quando entrares no teu Reino" (Lc 23.42; grifo do autor). Ele não pediu para ser honrado quando Cristo entrasse em seu Reino. Pediu apenas para ser lembrado. Era um pária na so­ciedade, alguém que a família e conhecidos ficariam felizes em esquecer. Seu pedido foi modesto — "Lem­bra-te de mim" —, mas que honra seria ser lembrado por Deus.
Sua fé era corajosa. A multidão caçoava de Jesus. Os agitadores o insultavam: "Se você é rei, onde está seu reino?". E ainda: "Se você é rei, desça da cruz!". O ladrão foi contra o consenso. Rechaçou o crescen­te clamor de vozes que poderia tê-lo desviado do caminho. Um amigo meu disse que só aceitaria a Cristo como seu Salvador se fosse morar longe da família e dos amigos. Achava que o escárnio e a re­jeição seriam insuportáveis. Só admitiria crer em se­gredo. Não é de admirar que se diga que o inferno está cheio de "covardes e incrédulos". Mas o ladrão não se importou com a opinião dos outros. Ele creu.


Seu maravilhoso futuro

Jesus excedeu, e muito, as expectativas do ladrão ar­rependido. "Eu lhe garanto: Hoje você estará comigo no paraíso" (Lc 23.43).
O encontro entre eles ocorreria naquele mesmo dia. A frase "você estará comigo" descreve a comunhão da qual desfrutariam. A maior bênção para o cristão encontra-se no fato de que Deus nos chamou "à co­munhão com seu Filho Jesus Cristo" (ICo 1.9). Na noite anterior, Jesus fizera uma promessa semelhan­te aos seus amigos mais próximos: "Se eu for e lhes preparar lugar, voltarei e os levarei para mim, para que vocês estejam onde eu estiver" (Jo 14.3). Ina­creditavelmente, o ladrão recebeu a mesma promes­sa que os discípulos! Ele estava tão seguro nos braços de Jesus quanto estaria se tivesse servido ao Senhor desde a juventude.
O fato de Jesus ter ou não descido ao Hades, como ensina o Credo dos apóstolos, é debatido por teólogos. Se fez isso, foi por um curto período, pois havia prometido ao ladrão que estariam juntos na­quele mesmo dia. Alguns colegas — que Deus os abençoe! — acreditam no "sono da alma", conceito que defende a idéia de que a alma dorme incons­ciente até o dia da ressurreição. Mas essa doutrina não está fundamentada nas Escrituras, e sim nos escritos de uma suposta profetisa, a qual não é con­siderada confiável por muitos. Aqui não há lugar para teorias sofisticadas ou jogos de palavras. Jesus disse: "Hoje você estará comigo no paraíso" (grifo do autor).
Naturalmente, Jesus morreu antes do ladrão e estava pronto para recepcioná-lo no local de habita­ção eterna. Spurgeon escreveu que "esse homem que foi seu último companheiro na terra" foi também seu "primeiro companheiro nos portões celestiais".5 O ladrão esteve com ele na condenação e, algumas ho­ras mais tarde, estava com ele na eternidade. Se o Cristo agonizante pôde dar ao ladrão a promessa de salvação eterna, pense no que o Cristo vivo pode fazer!
Ainda que eu corra o risco de ser mais claro do que deveria, deixe-me apontar os seguintes fatos sobre a salvação do ladrão:
Ele não fez uma parada no Purgatório, a cami­nho do Paraíso.
Ele não era batizado.
Ele não recebeu os últimos ritos da Eucaristia.
Ele não pediu à Maria, que estava em pé diante da cruz, ajuda para se aproximar de Jesus.
Para dar mais ênfase à promessa, Jesus iniciou com a frase "Eu lhe garanto". Era uma nota promissória expedida pelo Banco do Céu, tão digna de confiança quanto o homem que a assinava. Suspenso em apa­rente desamparo, Jesus ainda controlava os portões do Paraíso. Ele tinha o poder de fazer promessas e julgar o culpado. Jesus jamais desempenhou o seu papel de Rei de forma tão autêntica quanto naquele momento.


Sua fé é testada

Coloquemo-nos na situação do ladrão que agoniza­va. Ele ouvira a promessa dos lábios de Jesus, porém mais tarde, ao meio-dia, as trevas se espalharam por toda a terra. Ele ouve o Salvador, que acabara de encontrar, bradar: "Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?" (Mt 27.46). Depois disso, ocor­reu um terremoto, e as pedras se partiram ao meio. "Naquele momento, o véu do santuário rasgou-se em duas partes, de alto a baixo. A terra tremeu, e as ro­chas se partiram" (Mt 27.51).
Ao ver a escuridão e ser sacudido pela terra que tremia sob si; ao ouvir o brado de agonia da mesma pessoa em quem havia acabado de depositar sua con­fiança, ondas de dúvida cobriram sua fé. Talvez, no fim, seu Salvador não o pudesse salvar! Como pode­ria conduzir pecadores à presença do próprio Deus, se este o havia abandonado? Como podia falar com autoridade sobre o céu, quando, aparentemente, não conseguia controlar o caos sobre a terra?
Com ou sem dúvidas, a promessa de Jesus ainda era válida. Ainda que a fé do ladrão houvesse desa­parecido naquelas três horríveis horas, seu destino estava assegurado. Jesus havia falado, e isso era tudo que importava. "Quem crê no Filho tem a vida eter­na; já quem rejeita o Filho não verá a vida, mas a ira de Deus permanece sobre ele" (Jo 3.36).
Conheço cristãos que sofrem do mal de Alzheimer, que nem sequer conseguem lembrar que confiaram em Cristo como Salvador. Outros, com as faculda­des mentais em pleno funcionamento, passaram por enorme aflição emocional com a aproximação da morte. Um missionário que passou vários anos no trabalho de evangelização enfrentou uma morte tor­turante em função de um câncer. Suas falsas espe­ranças e seus sonhos não realizados acabaram com sua fé. Ele morreu acreditando que havia sido aban­donado por Deus. Suas últimas palavras foram: "Sin­to-me aprisionado".
William Cowper (1731-1800), poeta que amava a Deus e se converteu em tenra idade, sofria de pro­blemas mentais. Durante seus acessos de depressão, acreditava estar condenado. Certa vez, ao entardecer, escreveu:


Deus age de forma misteriosa
Nas maravilhas que realiza.6


Ainda assim, naquela mesma noite, Cowper ten­tou se suicidar. E, quando falhou, acreditou estar mais "condenado que Judas". Mas todos que o conheciam davam testemunho de seu profundo amor a Deus e ao Evangelho. Ele acreditava apaixonadamente em Cristo, e, no fim, isso é tudo que importa. As confu­sões de seu estado mental não invalidavam a pro­messa de Jesus, e é sua promessa que vale.
Deixe que o ladrão desanime; que tenha receio; que venha a pensar que aquele em quem havia de­positado sua fé não tinha como cumprir a promes­sa — isso não importa. Deus havia falado. Naquele dia, ele estaria com Jesus no Paraíso. E, quando ele escutou a oração final de Jesus — "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito" (Lc 23.46) —, sua fé foi indubitavelmente restaurada. O sofrimento agora era suportável, pois seu terrível dia logo te­ria um fim.
Essa extraordinária história traz-nos algumas lições.


Lições transformadoras

Lembremo-nos de que ambos os ladrões oraram, mas apenas um foi salvo. O outro ladrão disse: "Você não é o Cristo? Salve-se a si mesmo e a nós!" (Lc 23.39; arc). O homem agonizante pensou: "Se Je­sus é rei, por que deixaria de exercer sua soberania, salvando os três que estão sendo crucificados hoje?". Esse ladrão queria estender a vida na terra por mais alguns dias ou anos. E se Jesus tivesse ouvido a ora­ção dele e salvado a si mesmo e aos outros dois? Ele teria cancelado o plano de Deus e não poderia salvar ninguém mais. O problema desse ladrão é que ele se importava apenas com esta vida, não com a próxima. "Ele não sentia qualquer arrependimen­to pelos seus pecados, apenas a aflição de estar sofrendo as conseqüências de seus atos".7 Jesus mor­reu para que o ladrão perdoado pudesse estar no Paraíso e para que você e eu possamos estar com ele no futuro.
Jesus foi contado com os transgressores, para que você e eu pudéssemos ser contados com os redimidos. Embora fosse pessoalmente puro, foi considerado transgressor tanto por Deus quanto pelo homem. Ele sofreu o que não merecia, ou seja, o nosso pecado, e nós tivemos o que não merecíamos, ou seja, sua jus­tiça. "Deus tornou pecado por nós aquele que não tinha pecado, para que nele nos tornássemos justiça de Deus" (2Co5.21).
Os ladrões tiveram a mesma oportunidade. Am­bos ouviram as palavras de Jesus: "Pai, perdoa-lhes". Ambos sabiam que Jesus estava sendo ridiculariza­do por afirmar ser o Rei dos judeus. Ambos ouviram o que diziam os inimigos de Jesus: '"Salvou os ou­tros', diziam; 'salve-se a si mesmo, se é o Cristo de Deus, o Escolhido'" (Lc 23.35). Mesmo assim, am­bos estarão separados para sempre, cada um com seu destino. Mesmo enquanto você lê estas palavras, um está na presença de Deus, e o outro, em um lugar de isolamento, tristeza e terror. O que os separou não foi a intensidade do mal que praticaram nem o distanciamento que tinham de Cristo. Eles estão se­parados porque um pediu ajuda a Cristo, enquanto o outro o ridicularizou.
Esses ladrões representam toda a raça humana. Em última análise, o mundo não é dividido geográfi­ca, econômica ou racialmente. Não podemos traçar uma linha separando as pessoas mais ou menos boas das mais ou menos más. Todas as raças, nações e culturas estão divididas pela cruz. De um lado, estão os que crêem, do outro, os que optam por se justifi­car, determinados a entrar na presença de Deus por conta própria. O céu e o inferno não são lugares dis­tantes, estão próximos de nós. Tudo depende de como nos comportamos com Jesus.
Por fim, caro leitor, hoje é o dia para crer em Cris­to. Alguns vêem o ladrão como exemplo de "conver­são no leito de morte", e conheço pessoas que acreditam que algum dia também crerão, mas logo antes de morrer. No entanto, poucos, muito poucos são salvos nas últimas horas ou dias de vida na terra. Um puritano, ao comentar a conversão do ladrão que ocorreu no momento de sua morte, com perspicácia falou: "Esse caso está registrado para que ninguém se desespere, somente aquele que ninguém poderia imaginar".
Warren Wiersbe observa que o ladrão não foi salvo na última oportunidade, e sim na primeira. Ele não estava presente quando Jesus transformou água em vinho nem quando Jesus acalmou a tempestade ou alimentou as multidões. Não ouviu o Sermão do Monte nem as palavras que Cristo disse ao paralítico: "Os seus pecados estão perdoados". Aquela foi a pri­meira oportunidade para acreditar em Cristo.
Existem duas grandes razões para não perdemos tempo em aceitar a Cristo como nosso Redentor pes­soal. Primeira: não sabemos a hora em que morrere­mos. Nem todos recebem aviso. Nem todos morrem de doenças terminais ou permanecem conscientes de­pois de um acidente de carro. Milhões de pessoas morrem de forma repentina, sem ter ao menos um minuto para pensar sobre seu relacionamento com Deus. Segunda: a maioria dos que rejeitam o Evan­gelho quando estão saudáveis continuará rejeitando quando chegar a hora da morte. Conforme ficamos mais velhos, ou nosso coração é atraído mais para perto de Cristo ou é impelido a se afastar mais e mais dele. É impossível permanecer neutro.
O ladrão que não se arrependeu comprova essa teoria. Veja-o lá na cruz, sofrendo indizível agonia. Ele sabe que está a ponto de morrer. Seu amigo o ajudara a ter consciência de seus grandes pecados. E, ainda assim, por incrível que pareça, ele zomba de Jesus em seu último suspiro! Como a maioria das pessoas, morreu da mesma forma que viveu. Não é de admirar que o escritor de Hebreus tenha perguntado: "Como escaparemos, se negligenciar­mos tão grande salvação?" (Hb 2.3). Obviamente, não há escape.
Já o ladrão arrependido nos dá a esperança que todos buscamos. Ainda que tivesse muitos pecados, tornou-se uma testemunha da imerecida graça de Deus. Ele é a prova de que um ato de fé pode salvar até mesmo o pior dos pecadores. Na verdade, a ques­tão não está no tamanho de nosso pecado, mas em nossa disposição para crer, a qual determina nosso destino.
William Cowper, embora atormentado pelas dú­vidas, compreendeu que, se o ladrão pôde ser salvo, todos nós podemos ser salvos também. Ele escreveu um hino intitulado There is a fountain fdled with blood [Há uma fonte cheia de sangue}. Uma de minhas estro­fes favoritas diz:


Agonizante, o vil ladrão, contrito, achou na cruz a mais perfeita redenção na graça de Jesus.


O perdão dado ao ladrão lembra-nos que há mais graça no coração de Deus que pecado em nosso pas­sado. Nós, da mesma forma que ele, também pode­mos ser bem recebidos na eternidade. Basta transferirmos nossa confiança para aquele que guar­da as chaves do Paraíso.


PR CHARLES URGNEM






FONTE : Erwin W. Lutzer.

domingo, 26 de junho de 2011

                                                               SALMO 23

                                                                                                         TÍTULO
Não há nenhum título inspirado para este salmo, e não é necessário, pois ele não registra nenhum evento especial, e não precisa de outra chave além daquela que todo cristão pode encontrar em seu próprio peito. É a Pastoral Celeste de Davi; uma obra poética excelente, que nenhuma das filhas da música pode superar. A clarinada da guerra aqui dá lugar ao cachimbo da paz, e aquele que tão recentemente chorou as mágoas do Pastor em melodia ensaia as alegrias do rebanho. Sentado sob uma árvore frondosa, com seu rebanho em volta, como o pastorzinho de Bunyan no Vale da Humilhação, visualizamos Davi cantando essa pastoral incomparável com um coração cheio de alegria; ou, se o salmo é o produto de seus anos avançados, temos certeza de que sua alma se voltou em contemplação para os solitários ribeiros de água que ondulavam sussurrantes entre os pastos do deserto, onde nos primeiros dias ela fazia sua morada. Esta é a pérola dos salmos, cujo esplendor suave e puro deleita os olhos; uma pérola da qual Helicon não precisa se envergonhar, embora o Jordão o reivindique. Desse canto delicioso pode-se afirmar que sua piedade e sua poesia são iguais, sua doçura e sua espiritualidade são incomparáveis.

A posição deste salmo é digna de nota. Segue o salmo 22, que é peculiarmente o Salmo da Cruz. Não há pastos verdes, não há águas tranqüilas do outro lado do salmo 22. Só depois que lemos "Meu Deus, meu Deus, porque me desamparaste?" é que chegamos a "O Senhor é meu Pastor". Precisamos conhecer por experiência o valor do derramamento de sangue, e vermos a espada acordada contra o Pastor, antes que possamos verdadeiramente conhecer a doçura do cuidado do bom pastor.

Já se disse que aquilo que o rouxinol é entre os pássaros, esta ode divina é entre os salmos; pois tem soado docemente nos ouvidos de muitos pranteadores em sua noite de choro, e o tem podido esperar por uma manhã de alegria. Eu me aventuro a compará-la também à cotovia, que canta enquanto sobe, e sobe enquanto canta, até que some de vista, e mesmo então não nos deixa sem ouvi-la. Observe as últimas palavras do salmo - "Habitarei na casa do Senhor para sempre" -; são notas celestiais, mais adequadas às mansões eternas do que a esses lugares de moradia abaixo das nuvens. Ó, que nós possamos entrar no espírito do salmo enquanto o lemos, e então viveremos a experiência dos dias do céu aqui na terra!

DICAS PARA O PREGADOR
VERS. 1. Trabalhe a comparação entre um pastor e suas ovelhas. Ele governa, guia, alimenta e as protege; e elas o seguem, o obedecem, o amam e confiam nele. Pesquise se somos ovelhas; mostre a sina dos cabritos que se alimentam ao lado das ovelhas.
VERS. 1 (segunda cláusula). O homem que está além do alcance da penúria para o tempo presente e a eternidade.

VERS. 2 (primeira cláusula). O descanso de crer.
1. Vem de Deus - "Ele me faz".
2. É fundo e profundo - "deitar", repousar.
3. Tem sustento sólido - "em verdes pastagens".
4. É assunto para louvor constante.
VERS. 2. O elemento contemplativo e o elemento ativo são satisfeitos.
VERS. 2. A frescura e a riqueza das Sagradas Escrituras.
VERS. 2 (segunda cláusula). Em frente. O Guia, o caminho, os confortos da estrada, e o viajante nela.

VERS. 3. Restauração graciosa, direção santa e motivos divinos.

VERS. 4 O silêncio macio do trabalho do Espírito.
VERS. 4. A presença de Deus é o único apoio seguro na morte.
VERS. 4. Vida na morte e luz nas trevas.
VERS. 4 (segunda cláusula). A calma e a quietude do fim do homem bom.
VERS. 4 (última cláusula). Os sinais do governo divino - a consolação dos obedientes.

VERS. 5. O guerreiro banqueteado, o sacerdote ungido, o hóspede satisfeito.
VERS. 5 (última cláusula). Os meios e os usos do ungir do Espírito Santo contínuas vezes.
VERS. 5. Providenciais abundâncias, e qual o nosso dever a respeito disso.

VERS. 6 (primeira cláusula). A bem-aventurança do contentamento.
VERS. 6. Na estrada e em casa, ou atendentes celestiais e mansões celestiais.

PASTOR CHARLES URGNEM



FONTE:CH.Spurgeeon

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Um brado por perdão
"Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que estão fazendo"
Lucas 23.34


“Como perdoá-lo se não posso confiar nele?", perguntava uma mulher (que conheci em um cruzeiro pelo Caribe), falando sobre o marido. Não era a primeira vez que a enganara nem a se­gunda, mas a terceira. Agora ele voltava, pedindo-lhe novamente perdão. Sendo honesto ao confessar o que fizera, ele esperava que o perdão fosse ime­diato, incondicional e completo. Afinal, a esposa era cristã!
O perdão soa maravilhosamente aos ouvidos, até que tenhamos de perdoar. Como perdoar alguém que continua quebrando as promessas? Por que perdo­ar alguém que não pede o perdão? E por que deve­ria ser você a perdoar, quando você foi o ofendido? Deve você perdoar alguém determinado a destruí-lo?
Talvez não haja lugar semelhante à cruz, em que nossas dúvidas sobre o perdão são respondidas com tamanha clareza. O primeiro brado do Salvador foi por perdão para os inimigos.


"Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que estão fazendo" (Lc 23.34).


Durante seu ministério, Jesus freqüentemente perdoava os que necessitavam de misericórdia. "Fi­lho, os seus pecados estão perdoados", disse Jesus ao paralítico (Mc 2.5). Suas declarações causavam uma avalanche de controvérsias, pois seus ouvintes sabiam que somente Deus podia perdoar pecados. Até mesmo o pecado cometido contra o semelhante é, em última análise, pecado contra Deus. Jesus ex­plicou que possuía autoridade para perdoar pecados, porque detinha credenciais de divindade.
Na cruz, porém, não exerceu essa prerrogativa di­vina, mas pediu ao Pai que fizesse o que ele, Jesus, havia feito anteriormente. Sacrificado como o Cor­deiro de Deus, recusou-se a assumir o papel de di­vindade. Ele, sem dúvida, era Deus, mas escolheu suspender seus direitos divinos. Identificou-se tão completamente conosco que, temporariamente, abriu mão de sua posição de autoridade. Ainda assim, seu coração preocupava-se com os que haviam instigado e cometido o maior crime da história. Ele orou para que o imperdoável fosse perdoado.
Em seu primeiro brado na cruz, Jesus chamou Deus de "Pai". E o faria novamente em seu último suspiro: "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito" (Lc 23.46). Mas, em meio à agonia, bradou: "Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?" (Mc 15.34; grifo do autor). Como veremos mais adiante, foi esse seu momento mais sombrio, tão sombrio que teve repercussões até na natureza, quando a luz do Sol foi interrompida. Naquele momento, o Filho sen­tiu em si todo o castigo de nossos pecados, e até mesmo o Pai retirou dele sua abençoada presença.
Ele podia chamar Deus de "Pai" enquanto era tra­tado injustamente. Quando a multidão chegou ao lugar chamado "Caveira" (Lc 23.33), a cruz foi dei­tada no chão, e ele foi posto sobre ela. Foi nesse mo­mento que começou a oração. O texto grego registra que ele ficou repetindo: "Pai, perdoa-lhes..." (Lc 23.34). Embora preso injustamente e tendo sofrido danos pessoais, ele sabia que podia contar com a pre­sença e as bênçãos do Pai. Também sabia que a ora­ção pelos inimigos seria ouvida.
Todos os discípulos o abandonaram (com exce­ção de João, que mais tarde voltou à cena do crime). As injustiças dos inimigos e a traição dos amigos não abalaram a confiança que tinha na presença do Pai. Ele sabia que o Pai poderia tê-lo poupado daquela injustiça. Aliás, sendo a segunda pessoa da Trinda­de, podia ter escolhido descer da cruz. Mas se salvar dessa maneira não fazia parte dos planos firmados na eternidade. Sendo assim, ficou satisfeito em di­zer "Pai", apesar de seus direitos pessoais terem sido insolentemente ignorados e de insultos terem sido proferidos contra ele. Esses sofrimentos não oculta­ram a face daquele a quem ele queria agradar.
Warren Wiersbe, pastor da Moody Church, per­guntava: "Sua fé é abalada pela perversidade dos pe­cadores ou pela fraqueza dos santos?". Sim, algumas vezes nossa fé é abalada. Uma mulher cujo marido havia tentado destruí-la, colocando os quatro filhos contra ela, disse: "De forma alguma vejo Deus [...] ele não está em parte alguma nesta situação". Pode­mos nos identificar com ela, pois todos nós sentimos, em determinados momentos, que fomos abandonados por Deus. Dizemos a nós mesmos que pai algum seria mero espectador enquanto o filho estivesse so­frendo injustamente. Mas o Pai de Jesus Cristo ficou firme ao presenciar a mais absoluta perversidade. Cristo sabia que podia confiar no Pai, mesmo quan­do a maldade parecesse fora de controle.
Quando o homem deu o pior de si, Jesus orou, não por justiça, mas por misericórdia. Implorou para que seus inimigos não sofressem as conseqüências dos próprios atos de maldade. E orou, não após suas fe­ridas terem sarado, mas enquanto estavam sendo abertas. Palavras de perdão saíam de seus lábios en­quanto os pregos eram cravados em seu corpo, quando a dor era mais intensa, quando a aflição era mais aguda. Ele orou enquanto a cruz era baixada no bu­raco com um tranco. Foi nesse momento, em que os nervos ainda estavam extremamente sensíveis e a dor era inconcebível, que ele, vítima do maior crime da história, orou pelos criminosos.
Ele podia perdoar porque estava tratando dos as­suntos de seu Pai. No Getsêmani, ele orou: "Meu Pai, se for possível, afasta de mim este cálice; contu­do, não seja como eu quero, mas sim como tu que­res" (Mt 26.39). Não se tratava de uma investida de Satanás, embora este tivesse tentado adicionar al­guns ingredientes na poção. O cálice havia sido en­tregue a Jesus pelo seu Pai e consistia na tarefa de comprar "para Deus gente de toda tribo, língua, povo e nação" (Ap 5.9). Isso significava que o Filho seria cruelmente crucificado e se tornaria "pecado" por toda a humanidade. Ele sorveria do cálice do sofri­mento até o fim. O cálice compraria o perdão para aqueles por quem ele agora orava.
Será que podemos dizer "Pai" enquanto estamos sendo crucificados? Será que podemos orar pelo per­dão dos que estão tentando nos destruir? Será que te­mos fé suficiente para deixar o juízo nas mãos de nosso Pai celestial? 'Amados, nunca procurem vingar-se, mas
deixem com Deus a ira, pois está escrito: 'Minha é a vingança; eu retribuirei, diz o Senhor" (Rm 12.19). Na cruz, vemos o autocontrole do Homem que tinha o po­der de destruir, mas, em vez disso, optou pelo perdão. Nessas palavras, está a esperança de nossa salva­ção. Então, acheguemo-nos para escutar mais aten­tamente o que está sendo dito. Talvez escutemos nosso nome sendo mencionado na súplica.


Uma súplica por perdão

Cercado pelo escárnio e enfraquecido pela perda de sangue, seus lábios apenas se moviam. O que ele estava tentando dizer? Estaria gemendo de dor? Es­taria murmurando palavras de autocomiseração? Ou estaria amaldiçoando os que o crucificaram? Não, ele tinha uma palavra de perdão para seus inimigos: "Pai, perdoa-lhes...". Apesar de ser pessoalmente puro, ele foi "contado entre os transgressores" (Is 53.12). )á naquele momento, ele estava levando sobre si os pecados destes e implorando que seu sacrifício tam­bém pudesse ser aplicado a eles. Até mesmo isso foi cumprimento de profecia: "Ele levou o pecado de muitos, e pelos transgressores intercedeu" (Is 53.12). Ele orou em voz alta para que soubéssemos que estávamos incluídos na oração. Já na noite anterior, no jardim do Getsêmani, ele se lembrara de nós:


Minha oração não é apenas por eles. Rogo tam­bém por aqueles que crerão em mim, por meio da mensagem deles, para que todos sejam um, Pai, como tu estás em mim e eu em ti. Que eles tam­bém estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste (]o 17.20,21).


A oração iniciada naquela noite continuou na cruz, e ainda hoje ele se encontra à direita do Pai, interce­dendo por nós. Esteja certo de que ele nunca se es­quecerá de nós.


Ele consigo leva cinco feridas que sangram
Recebidas no Calvário.
Delas se derramam eficazes orações
Que imploram veementemente por mim.
"Perdoa-lhe, oh, perdoa-lhe", elas clamam,
"Tampouco deixa este pecador resgatado morrer!"3


Passemos à frase seguinte da oração: "Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que estão fazendo" (Lc 23.34). Eles ignoravam o delito que estavam cometendo? É lógico que não! Judas sabia que havia traído o amigo; Pilatos sabia que havia condenado um homem inocen­te; o Sinédrio sabia que havia subornado testemunhas falsas para sustentar as acusações. Nenhum deles ig­norava os crimes dos quais eram culpados, mas ignora­vam a monstruosidade de seus crimes. Por alguma razão, não sabiam que estavam crucificando o Filho de Deus.
Paulo, o apóstolo, concordou. Ele disse que o co­nhecimento estava oculto para nós e acrescentou: "Nenhum dos poderosos desta era o entendeu, pois, se o tivessem entendido, não teriam crucificado o Senhor da glória" (1Co 2.8). Se eles soubessem o que agora está claro, teriam reconhecido Jesus como o Messias, o Senhor da glória. O crime deles era mui­to maior do que poderiam imaginar, devido ao valor infinito daquele a quem condenaram. Estavam cons­cientes do que haviam feito, mas não de tudo que haviam feito.
O Antigo Testamento diferencia o pecado come­tido na ignorância do delito cometido deliberadamente. "Todo aquele que pecar com atitude desafiadora [...] insulta o Senhor, e será eliminado do meio do seu povo" (Nm 15.30). O tal pecado de natureza é especialmente perverso, pois, cometido conscientemente, é voluntário e subversivo. Jesus falou de um pecado imperdoável, cometido pela na­ção de Israel na rejeição persistente e deliberada ao Messias. Obviamente, havia diversos graus de res­ponsabilidade, visto que o povo possuía variados ní­veis de conhecimento. Para alguns, a rejeição a Cristo foi uma desobediência voluntária.
Compare isso com o pecado cometido na igno­rância: "Quando alguém cometer um erro, pecando sem intenção [...] trará ao Senhor um carneiro do rebanho..." (Lv 5.15). Pecados dessa natureza ne­cessitavam de sacrifício, mas não eram tão sérios quanto a desobediência premeditada e desafiadora. Mesmo na época do Antigo Testamento, Deus avali­ava o comportamento humano pela postura do cora­ção e pelo nível de conhecimento.
Não nos esqueçamos do fato de que até mesmo os pecados cometidos na ignorância precisam de per­dão. Jesus não disse: "Eles não sabem o que estão fazendo, por isso deixe-os ir em paz". Deus jamais rebaixa seus padrões de justiça ao nível de nossa ig­norância. Os pecados cometidos na ignorância, ain­da assim, são pecados. A culpa dos que crucificaram a Jesus era real e objetiva, a despeito de quanto a compreendessem.
Você alguma vez avançou o sinal vermelho "por ignorância"? Um amigo meu discutiu com um policial, tentando provar que não havia notado que o sinal estava vermelho. Você pode adivinhar quem venceu a discussão. A ignorância não é desculpa em nossa sociedade e também não é desculpa na presença de Deus. Além do mais, os que crucificaram a Jesus deve­riam saber disso — e saberiam, se não tivessem medo da verdade.
Compare o conhecimento deles com o nosso. Eles não sabiam que a ressurreição de Jesus se seguiria à crucificação; não sabiam que a igreja que transforma­ria o mundo se originaria no Pentecoste; não sabiam que seria escrito o Novo Testamento, o qual explica­ria claramente e, em detalhes, os planos de Deus para as eras vindouras. Freqüentemente, perguntam-me se os que pertencem a outra religião e jamais ouvi­ram falar de Cristo serão salvos. Normalmente, essa pergunta é formulada por pessoas que possu­em bons conhecimentos acerca de Cristo e podem avaliar suas qualificações. Parecem estar mais pre­ocupadas com os que jamais ouviram falar dele que com a própria resposta com relação a Deus. Mas se a responsabilidade é baseada no conhecimento, os que nasceram em nossa cultura passarão por uma condenação muito maior que os que nunca ouviram falar de Cristo.
Certamente, o pecado demonstra nossa ignorân­cia. Não temos idéia da grandeza de nosso pecado porque não compreendemos a grandeza de nosso Deus. Mas, hoje em dia, temos menos desculpas que em qualquer outra época. Não temos nenhuma ra­zão para dar as costas ao Salvador, que nos deixou testemunhos óbvios de sua autenticidade.


Se a mensagem transmitida por anjos provou a sua firmeza, e toda transgressão e desobediência recebeu a devida punição, como escaparemos, se negligenciarmos tão grande salvação? [...] Deus também deu testemunho dela por meio de sinais, maravilhas, diversos milagres e dons do Espírito Santo distribuídos de acordo com a sua vontade" (Hb 2.2-4).


Conheci um jovem que, audaciosamente, optou por rejeitar a Jesus. Ele fora criado em uma boa família cristã e havia freqüentado escolas cristãs. A cul­pa dele é maior que a de seu melhor amigo na facul­dade, que cresceu sem pais cristãos, sem igreja e sem modelo moral. Ambos são culpados, ambos estão cheios de motivos para buscar a Cristo e ambos es­tão desprezando a salvação, mas com diferentes ní­veis de responsabilidade. Arthur Pink escreveu que pessoas assim estão "cegas para a própria loucura".4


A resposta à oração de Jesus

"Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que estão fa­zendo."


Essa oração foi respondida? Tenho certeza de que Jesus recebia absolutamente tudo que pedia. Ao con­trário de nós, o Filho sempre conheceu a vontade do Pai, de modo que sempre agradava ao Pai dar tudo que seu amado Filho lhe pedia. Foram perdoados todos por quem Jesus orou. É claro que não quero com isso dizer que todos os envolvidos na crucificação foram perdoa­dos. Muitos morreram em seus pecados, mas aqueles por quem foi feita a oração receberam o perdão.
"Agora encontramo-nos como pecadores aos pés de sua cruz", escreveu Bonhoeffer, "e agora, uma questão de difícil compreensão é solucionada: Jesus Cristo, o inocente, clama enquanto a vingança de Deus sobre os ímpios é cumprida. [...] Aquele que suportou a vingança, somente ele, pode pedir per­dão para os ímpios".5 Nesse ponto, a vingança de Deus foi retirada, para que o perdão pudesse vir da mesma pessoa que orou por isso. Na verdade, Jesus estava orando para que sua morte fosse eficaz sobre quem devia ser.
Alguns dos soldados presentes ao pé da cruz fo­ram perdoados. O centurião, que provavelmente era o responsável pelo suplício na cruz, ficou profunda­mente perturbado com a escuridão, o terremoto e a ruptura do véu do Templo. Posicionando-se contra a opinião popular, exclamou: "Verdadeiramente este era o Filho de Deus!" (Mt 27.54). Espero vê-lo no céu.
Dentre os judeus de Jerusalém que pediram a cru­cificação — os que diante de Pilatos gritaram: "Que o sangue dele caia sobre nós e sobre nossos filhos!" (Mt 27.25) — muitos foram perdoados. Talvez quei­ramos argumentar que eles não ignoravam o que es­tavam fazendo. Certamente imaginamos que tais pessoas não eram as que Jesus tinha em mente, pois pareciam saber exatamente o que estavam fazendo.
Por incrível que pareça, Pedro acreditava que elas ignoravam a total extensão da própria culpa. Ouçam a pregação: "Vocês mataram o autor da vida, mas Deus o ressuscitou dos mortos [...] Agora, irmãos, eu sei que vocês agiram por ignorância, bem como os seus líderes" (At 3.15,17). Por causa de seu ser­mão, cerca de 2 mil pessoas aceitaram a Jesus como o Messias. Devemos somar esse número aos 3 mil que responderam à mensagem do dia de Pentecoste, que perfazem 5 mil pessoas (At 4.4). Também le­mos que um grande número de sacerdotes confes­sou a Jesus como Senhor (At 6.7). Tudo isso em resposta a oração de Jesus!
Medite sobre a misericórdia divina! Deus não res­ponsabilizou aqueles criminosos pela morte de seu amado Filho! Vários deles proclamaram: "Que o san­gue dele caia sobre nós e sobre nossos filhos!" (Mt 27.25), significando que assumiriam a responsabili­dade pela morte de Jesus pelas gerações futuras. Mas na soberana graça de Deus, o sangue de Cristo foi, em vez disso, aplicado sobre o coração deles! Jim Nance observa que Deus "virou as palavras deles ao contrário, utilizando o sangue de Cristo para a obra mais gloriosa de sua salvação eterna".6
Será que Deus perdoou essas pessoas sem que tivessem pedido perdão? Não! A oração não foi feita a favor dos que não queriam ser perdoados, mas dos que buscaram o perdão. Não se tratava de uma oração genérica, que cobria todos os que participaram da crucificação, e sim de uma oração específica por aque­les que Deus salvaria. Não possuímos nenhuma evi­dência de que Jesus tenha, alguma vez, orado pelo inundo como um todo, e sim de que ele orou por aqueles que, embora ainda não fizessem parte de sua família, um dia passariam a fazê-lo (Jo 17.9).
Se Jesus tivesse descido da cruz, a oração dele não poderia ter sido respondida. As conversões que ocorreram 2 mil anos atrás foram os "primeiros fru­tos", os quais anunciam o dia em que Israel será sal­vo. E as conversões dos gentios também foram as "primícias", prenunciando o dia em que nós, os gen­tios, seremos recebidos nos céus.


Respostas às nossas dúvidas

Na oração de Jesus, podemos encontrar pelo menos algumas respostas às nossas dúvidas sobre perdão. Existem pecados "imperdoáveis"? A resposta é não, pois, se até mesmo o assassinato do Filho de Deus foi "perdoável" para os que buscaram o per­dão, logo, todos os pecados são perdoáveis. No dia 9 de fevereiro de 2001, um submarino americano emer­giu e bateu em um pesqueiro japonês, o que resul­tou no afogamento de nove pessoas. Foi noticiado que os pais de uma das vítimas, um rapaz, declara­ram: "O que aconteceu foi imperdoável". Sabemos o que queriam dizer, pois às vezes o ser humano sente uma perda de forma tão profunda, que perdoar fica além de sua capacidade. Quando a babá é a respon­sável pela morte da criança, os pais freqüentemente sentem que lhes é impossível perdoar. Mas o que o homem não pode perdoar, Deus pode. A cruz pode reparar o irreparável.
Um homem que havia estuprado quatro mulhe­res escreveu-me perguntando se poderia ser perdoado. Meu primeiro impulso foi dizer: "No que depender de mim, não!". Mas a resposta é: "Sim". Ele pode ser perdoado por Deus, ainda que as vítimas que tive­ram a vida destruída jamais o perdoem. Ele, bem como uma multidão de outros iguais a ele, deve se contentar com o perdão de Deus quando lhe faltar o perdão do homem. Não existe pecado imperdoável para os que se achegam a Cristo em busca de per­dão. Mas para os que o rejeitam, todos os pecados são imperdoáveis.
Clarence Cranford escreveu: "Com essa oração proferida na cruz, Jesus construiu uma ponte de per­dão, por onde os torturadores, arrependidos, podi­am chegar ao Pai".7 Deus não responsabilizou pelo assassinato de seu precioso Filho, o Senhor da Glória, os que desejavam crer. A oração de Jesus foi respon­dida, porque a cruz é o próprio Deus nos substituin­do. Ele, que não precisava de perdão, morreu por todos, e, não fosse pela morte dele, estaríamos con­denados.
Se você é sempre tentado a pensar que Deus não leva a sério o pecado, olhe para o Calvário. Um amigo contou-me como pregou o Evangelho a uma mulher em um avião, que se considerava correta o suficiente para ir ao céu. Quando ele perguntou o que ela faria se as obras que realizava não fossem boas o suficien­te, a mulher respondeu: "Eu diria a Deus que ele de­veria maneirar".
A colina da Caveira, como era chamado o Calvário, faz-nos lembrar que Deus não tem como "maneirar". A marcante santidade divina exigia um castigo enor­me. E ainda que Deus nos perdoasse por causa de Cristo, não seria essa sua função ou obrigação. Ele nos perdoa por misericórdia imerecida para conosco, cuja correta punição seria o inferno. A cruz é a ponte de amor do Redentor. Nela, atravessamos o abismo que nos separa de Deus, que graciosamente provi­denciou o perdão para os que crêem. Se não enten­dermos isso, não compreenderemos o Evangelho.
Então, devemos orar pelos que não pedem nosso perdão? Sim, Jesus orou pelos seus inimigos antes que eles se tornassem amigos. Obviamente, desco­nhecemos a reação daqueles por quem oramos. Não sabemos se irão buscar o perdão de Deus ou o nos­so perdão, caso tenham errado conosco. Ainda as­sim, Jesus ensinou aos seus discípulos: "Orem por aqueles que os perseguem" (Mt 5.44). Essas são as orientações de Cristo para quando nossos inimigos fizerem conosco o que fizeram com ele. Podemos orar como Jesus: "Perdoa-lhes, pois não sabem o que estão fazendo", mas diferentemente dele, não sabe­mos como nossa oração será respondida.
Devemos perdoar os que não nos pedem perdão? Visto que Deus não perdoa os que se recusam a lhe pedir perdão, por que deveríamos agir de maneira di­ferente? Porque, ao conceder o perdão, ainda que não tenha sido pedido, depositamos diante de Deus nos­so amargor e entregamos os adversários a ele.
Nos relacionamentos humanos, mesmo quando se pede perdão, a reconciliação jamais é uma certe­za. "Se o seu irmão pecar, repreenda-o e, se ele se arrepender, perdoe-lhe. Se pecar contra você sete vezes no dia, e sete vezes voltar a você e disser: 'Es­tou arrependido', perdoe-lhe" (Lc 17.3,4). O objeti­vo do perdão é sempre a reconciliação, ou seja, a união de dois corações amargurados. Porém, mesmo quando o perdão não é pedido, a parte caluniada ain­da pode optar por "perdoar", desde que a injustiça seja passada para Deus. Caso contrário, a mágoa e a raiva acabam destruindo a alma humana e entriste­cendo o Espírito Santo. O autor do delito já causou dor suficiente. A única forma de livrar-se de sua con­tínua influência é "perdoando", ao entregar a ques­tão a Deus.
Até onde sabemos, Timothy McVeigh, o homem que explodiu o prédio em Oklahoma e assassinou 168 pessoas, morreu sem ser perdoado por Deus e pelos homens. Não havia motivo algum para que os parentes das vítimas lhe concedessem o perdão que ele não queria ou pedira. Mesmo assim, entre os so­breviventes, os que foram capazes de "perdoar", con­fiando em Deus para o "acerto de contas", serão recompensados com saúde e estabilidade emocional. Assim é o espírito de Jesus.
Mas, onde está a justiça? Como optar pelo "per­dão" para um homem que merece um destino pior que a morte? Como abrir mão da ira que, com justi­ça, busca compensação ou vingança? Jesus também nos ajuda nesse ponto. "Quando insultado, não revidava; quando sofria, não fazia ameaças, mas en­tregava-se àquele que julga com justiça" (1Pe 2.23). Jesus pode perdoar sem desistir do desejo de justiça. Ele não sentiu necessidade de ajustar as contas na­quele momento e entregou seu problema ao Juiz do Universo, aguardando o veredicto final.
Dois mil anos se passaram, e os que maltrataram a Jesus e rejeitaram seu perdão — criminosos — ain­da não foram levados à justiça. Mas está chegando o dia em que estarão diante do Pai daquele que foi tão cruelmente martirizado. Jesus contentou-se em aguar­dar por esse dia, pois não havia hesitação em sua fé na justiça do Pai. Sim, nós também podemos confiar naquele que julga com justiça.
A mulher abandonada pelo marido por causa de uma amante; a adolescente que teve a infância roubada ao sofrer abusos do pai; o irmão que foi passa­do para trás na herança por um parente inescrupuloso — esses, e outros semelhantes a eles, devem en­tregar a mágoa a Deus. Devem contentar-se com a certeza de que casos assim ainda serão julgados no verdadeiro e supremo tribunal.
Devemos perdoar todos os que nos pedem perdão? E, mesmo quando duvidamos da sinceridade, podemos acreditar em suas razões? A resposta é sim, pois não podemos ver o coração humano. Jesus disse aos discí­pulos que eles deveriam estar dispostos a perdoar di­versas vezes — "setenta vezes sete" — se quisessem compreender o perdão divino. No entanto — e isto é importante — o perdão deve, mais uma vez, ser distinguido da reconciliação. A mulher pode perdoar o mari­do adúltero, mas isso não a obriga a acreditar cegamente em seu modo de vida. Para que isso aconteça, será ne­cessário algum tempo, aconselhamento psicológico, prestação de contas etc. Recuperar a confiança de al­guém é um processo longo e freqüentemente difícil.
Onde o pecado não é levado a sério, o perdão é recebido de forma leviana. Até mesmo o arrependi­mento sincero deve ser atualizado pela disciplina e com uma entrega diária a Deus. Toda a nossa vida deve ser caracterizada pelo arrependimento. Nenhum ato de arrependimento em si garante uma vida de obediência a partir do perdão.
O primeiro brado da cruz ecoa a única palavra sem a qual não podemos ser salvos: perdão. Tanto naquela época quanto agora, ele é livremente conce­dido aos que o recebem humildemente. Afortunada­mente, a morte de Jesus fez que a resposta a essa oração se tornasse uma realidade.


PASTOR CHARLES URGNEM






Fonte : Erwin W Lutzer